Acordo pela manhã vindo de um sono mal dormido
Acendo um cigarro já com o coração partido
Olho pra minha filha dormindo e penso no futuro
Não me sinto tranquilo por ela, não me sinto seguro
Sei que as coisas aqui vão de mal a pior
Mesmo se eu me drogasse não me sentiria melhor
Escuto o barulho de fogos de artifício
São hipócritas nas ruas fazendo comíssio
É época de eleição, e nas ruas há uma maldição
Cartazes por todos os lados pertubando minha visão
Subo no muro e olho ao redor com o pensamento vago
Ainda sonolento e fraco dou mais um trago
Vejo as pessoas balançando bandeiras, é uma tortura diária
Será que não entendem, essa gente mercenária
Tentam me convencer a votar, com panfletos, em alguém que eu não quero
Mas eu já estou decidido, meu voto é o do bobo, zero, zero
Cuspo no chão, jogo a guimba fora e entro puto
Vou me confinar no meu quarto, estou de luto
Esse país está cada dia mais sem critério
Porra, eu já devia mesmo era estar num cemitério
Vejo o Menor deitado dormindo, veio de uma noitada
Ele me chamou pra ir, mas pra que? Não ia mudar em nada
Iamos ficar igual a dois palhaços num saco cheio de nada
As pessoas estão muito estúpidas e a vida limitada
Provavelmente ele encheu os cornos e voltou pra casa frustrado
Nada diferente acontece a noite, se tú tá duro e sem um carro
Foi melhor mesmo ter ficado em casa vendo um filme de sexo
Lá fora tudo é monótono e aparenta não ter nexo
Eu poderia ir ao shopping hoje com a Viviane e a Ana Júlia
Mas eu só iria para satisfazê-las, lá meu estômago embrulha
Pessoas andam e compram, homens, mulheres, crianças, amigos e amigas
Puxa lá não tem cor nenhuma pra mim, as pessoas me parecem formigas
Ficam numa chupação de pica de dar medo
É tudo sempre a mesma coisa e eu iria querer voltar cedo
É melhor eu pensar em outra coisa mais do meu agrado
Mas nada me agrada, estou ficando um cara chato
Ligo a televisão pra achar satisfação
Mas é em vão, não consigo gostar nem do Gugu nem do Faustão
A televisão domingo é mesmo uma podridão
Uma penca de artistas de merda, maior bajulação
Felipe Dilon, Perla do funk, artistas globais, KLB
Cara é tanto farsante que eu nem quero ver
Não sei como tem tanta gente que gosta
É como o McDonald’s, eles adoram comer essa bosta
Desligo a tv, senão vou me emputecer
Os filhos dos artistas não precisam se fuder
Aparecem cada dia mais e mais, mesmo sem talento
Eles tem um pistolão e aproveitam o momento
Acendo outro cigarro, preciso me punir
Sou humano como eles, que vergonha, parece que vou explodir
Preciso beber alguma coisa, preciso fumar um beck
Preciso esquecer que estou num pais governado por moleques
Quero ir até algum lugar para beber uma cerveja
Mas meu bairro está em ditadura agora você veja
Posso ser mais um na lista, posso estar ameaçado
Estarei sempre condenado pelos erros do passado
Saio na rua sem me sentir a vontade
Fico pensando aonde estão e o que fazem esses covardes
Estão matando e sequestrando pessoas
Enquanto os verdadeiros canálias vivem a vida numa boa
Meus vizinhos são ignorantes e sempre me julgam tanto
Estão precisando se olhar no espelho, será que se acham santos?
Acho que a humanidade está toda assim
Se acham tão bonzinhos, o papel de vilão fica pra mim
Começa a escurecer e eu escrevendo, quase me pus a chorar
Graças a Deus ainda tenho o que comer e um teto pra morar
Minha família dividida me deixa sem chão
Tudo bem já engoli a dor meu irmão
Passei a tarde toda escrevendo poesia
Mas ao ver de todos continuo um parasita
Tudo bem se não enxergam os verdadeiros valores
Deixo a todos com seu circo de horrores
O Pânico é a única coisa na tv que me faz sorrir
Eles fogem do trivial é isso que me faz curtir
Gosto de ver os magnatas sendo humilhados
Eles não conseguem lidar com a situação, não estão acostumados
Estava quase me mijando de tanto rir
Mas vi algo que fez meu pensamento divergir
O presidente da Rede Tv, um careca velho barrigudo, casando com um avião
Ela realmente deve estar apaixonada, e por que não?
Vou até de noite nessa prisão que é o mundo
Sem dinheiro fico no buraco mais profundo
Mas se eu tivesse dinheiro o que iria fazer?
Talvez fosse comprar um bom livro para ler
Talvez, não quero fazer o tipo intelectual
Prefiro com o que me julgam, um marginal
Marginal pois quero estar a margem desse sistema
Não quero me enquadrar nesse maldito esquema
É, vou encerrar por aqui com meu mundinho de plástico
Já estou ficando deprimido só de ver o fantástico
É como uma revista idiótica feita para os ricos
E eu sou só um caidinho vivendo de bicos
Penso em trabalho, e acho exploração
Penso em estudo e acho enganação
Prefiro fazer as coisas a minha maneira
Onde o homem põe a mão a coisa se torna faceira
O capitalismo é a maior mentira que eu já vi
Botam uns contra os outros, faz degrais, eu percebi
Segunda-feira vai chegando, ligam denovo esse motor louco
O problema do dinheiro é ter muito ou se ter pouco
Pra mim a vivência cotidiana é muito sofrida
Nunca imaginei chegar a esse ponto em minha vida
Mas isso não significa que eu queira morrer
Eu espero ainda ver a minha filha crescer
Talvez meu pensamento seja mesmo distinto
Mas olhem ao seu redor, é questão de instinto
O que me faz pensar na morte é ver que não existe esperança
Quero viver diferente mas sou obrigado a dançar essa dança
A arte e a música, que é o que interessa para mim
Padronizados, e eu sem me vender decreto o meu próprio fim
Cansei de lutar sozinho, sem ter um lugar para chamar de lar
Cansei de me humilhar, de rastejar, de viver a me arrastar
Mídia, tecnologia, moda, medicina, conforto, liberdade
Segurança, política, polícia, estudo, trabalho, tranquilidade
Tudo vendido e a vida imitando o vídeo
Estou ficando sem saída, empurrado ao suicídio
Magheize.