Marcado pra morrer
O que será que faz com que pessoas apaguem a chama de uma outra? Do que se alimentam esses malditos?
Agora, se eu morresse não seria grande coisa. Seria apenas mais um número, apenas estatística. Não mudaria nada, as pessoas não deixariam de comprar um jornal pela manhã, tampouco diminuiriam as filas nos hospitais públicos. O mundo continuaria hipócrita junto aos seus loucos. Acho que eu deixaria de ser um fardo para todos, eu sou a poluição em pessoa.
Não sei o que se passa por trás de toda essa máscara, mas algo eu aprendi nesse caminho torto que fiz pela vida, não se chega até a paz com a guerra. Não se conserta um erro com outro.
Talvez eu mereça esse cálice, talvez por ter tido eu uma vida marginal. De repente eu serviria de exemplo para pessoas em comum, a sociedade feita de homens de negócios não precisa de um poeta fuleiro como eu. Façamos melhor, me enterrem junto com a cultura, pois me sinto tão invisível como tal. Todos irão continuar vivendo suas rotinas cegamente, sem lutar pelo que realmente interessa.
Bem, acho que é isso. Não tenho valor algum aos olhos das pessoas. Minhas qualidades se escondem por trás dessa fumaça que me rodeia.
Acho que deixei as pessoas rancorosas, passei dos limites da sociedade. Mas por que as pessoas se limitam? Talvez se estivessem em minha condição sairiam de suas casas e tentariam viver intensamente como eu fiz.
Posso ter prejudicado alguém, mas Deus sabe que meu coração é puro, dentro de mim há o conforto, não sou nenhum monstro, sou boêmio por natureza, adoro remar contra a maré. Minha satisfação é sentar o cacete nesse padrão ridículo de vivência, meu auge é pular por sobre as leis, é passar por cima de tudo isso que nos torna infelizes. Se por isso eu mereço a morte, que venham. Podem vir, podem me alvejar e por fogo no meu corpo, minha alma é livre, livre tal qual meu pensamento.

